- É claro que está tudo escuro seu inútil, eu estava dormindo, está tarde! – Respondeu uma voz bem mais velha, carregada, arranhada e que apesar da rabugice, mostrava que na verdade não estava dormindo e sim que estava bem desperto.Uma luz se acendeu iluminando pouca coisa, a luz vinha de uma pequena vela sobre uma cabeceira feita de um velho tronco de uma árvore, ela estava pousada sobre um pequeno prato de madeira e a cera da vela depositada sobre o prato, formando esculturas desconexas, mostrava que aquela pequena vela, uma vez fora bem grande, muito grande, provavelmente era uma vela mágica que nunca… ou quase nunca, acabava.
Uma mão com dedos finos e compridos, cheios de verrugas pegou o prato e levantou a vela, aproximando-a do seu rosto, que era igualmente velho, talvez mais velho do que o próprio mundo. Seus olhos pequenos pareciam cansados, suas orelhas de elfo, antes pontudas, estavam caídas e cheias de brincos de madeira e metal, com contornos rebuscados e símbolos de poder, a realidade é que se não dissessem que aquela criatura era um elfo, ninguém saberia, a beleza dos elfos já não existia ali faz tempo, seu rosto era marcado com a passagem dos séculos e tudo ali lembrava alguém muito cansado. – O que quer aqui Zero? Aposto que não veio apenas para visitar o seu velho pai, que não vê há… bem, pelo menos há mil anos, não é mesmo? – perguntou o velho elfo, com um certo tom de rancor.
- Não pai, não vim mesmo – SNAP, com um estralo de dedos que soltaram faíscas o quarto se iluminou. Aquele quarto era estranho, talvez até mesmo mais do que isso, bizarro. No teto feito de palha havia mil coisas penduradas, pequenos totens, raízes, coroas de alho, até mesmo alguns animais mortos, como um gato, uma galinha e muitos corvos. Parecia haver também uma cozinha, embaixo de uma pilha de caldeirões e experimentos que borbulhavam e soltavam uma fumaça estranha e colorida. O cheiro, bem, era melhor não comentar nada sobre o cheiro, apenas dar um aviso para não chegar perto e isso diria tudo. Além da cama pequena, onde o velho elfo estava deitado, que nada mais era do que uma pequena tábua de madeira, havia também uma escada ao lado da cama, que levava a um outro patamar da casa, uma espécie de quarto improvisado, onde uma bonita elfa de cabelos cor-de-rosa dormia, alheia ao que estava acontecendo. Um cajado com uma gema em sua ponta, repousado ao lado de sua cama, mostrava que ela era uma maga. Zero não a conhecia. – Quem é ela pai? – Perguntou curioso, saindo das sombras e chegando mais próximo da fonte de luz que havia feito. Zero era baixo, não se parecia nada com um elfo, era pequeno, de pés bem grandes e peludos que estavam cobertos, por um estranho calçado branco, com cadarços igualmente brancos e um símbolo que fazia uma curvatura longa remetendo a velocidade. Vestia uma bermuda grande, cheia de bolsos e axadrezada vermelha e verde cobrindo as suas pernas peludas até as canelas e também uma camisa preta sem botões, com a dama da justiça cega estampada, carregando uma balança em uma mão e uma espada em outra e os escritos “Justice for All”. Em sua cintura, carregava um cantil, uma bússola, uma adaga e um estranho objeto cheio de lâminas e ferramentas que saíam para fora ou se escondiam dentro do mesmo. Zero era igualmente estranho naquele ambiente sujo e bagunçado, mas ele parecia se sentir a vontade ali. Quando o velho elfo ia xingá-lo por ter feito tal pergunta, Zero se adiantou respondendo – Isso não importa pai. Você sabe porque eu estou aqui. Eu estou no Vale do Dragão Fantasma a mando do senhor e com a missão de só voltar se algo estivesse acontecendo.
O velho arregalou os olhos, parecia que já esperava por aquilo, mas seus ouvidos não queriam acreditar no que estava ouvindo, “não! É muito cedo!”, pensou ele. E concordando com o velho, como se adivinhasse os seus pensamentos, Zero balançou a cabeça em tom afirmativo e disse – Ela está acordando!
Um trovão ressoou ao longe, na cama da menina elfa, um movimento brusco se deu e Zero achou que a garota havia acordado, mas podia ser apenas impressão sua, pois ela ainda mantinha os seus olhos fechados.
- Por que não veio antes seu burro? Por que esperou até agora para vir até aqui seu agourento? Eu nunca deveria tê-lo deixado fazer o trabalho de um adulto. Você é apenas uma criança!
- Pai eu já tenho 1.102 anos, não sou mais uma criança. – Disse Zero com um tom resignado, mas o velho elfo não queria ouví-lo, estava mais resmungando para si mesmo do que para seu filho e começava a revirar ainda mais a casa bagunçada, mexendo em diversos livros e tomos poeirentos. – Ahaaa! – Disse o velho elfo, segurando um livro que na verdade não tinha páginas, era apenas uma tábua de madeira, com um ar antigo, muito muito antigo, talvez mais antigo do que até o próprio elfo que a segurava. No contorno desta tábua, havia diversas runas, que brilhavam com uma aura branca, conforme o velho ia passando a mão e no meio, havia um buraco circular, com um dragão feito de vidro enegrecido incrustado ali, preso na ponta de cima e na ponta de baixo, por pequenos pinos. O velho elfo, deu um peteleco no dragão e ele começou a girar e a girar sem parar, cada vez mais rápido. Tão rápido era, que não dava mais para identificar o dragão ali, havia apenas a lembrança dele, como se fosse um fantasma… – A sombra do Dragão Fantasma… Kalimar – com um estremecimento de terror, o velho elfo, se virou para Zero, seu olhar parecia o de uma criança assustada, Zero nunca o vira assim, aliás, sempre achara que seu velho pai não sentia medo de nada, mas aquele olhar… ele guardaria aquela cena, durante muitos anos.
- Você sabe o que fazer Zero, guarde os portões, guarde com a própria vida e eu não quero ouvir você fraquejando hein! Ative os cães e não deixe ninguém chegar perto daquela casa, se isso acontecer… bem, se isso acontecer, saiba que eu vou te odiar com todo o meu poder! Ninguém pode chegar perto está entendo!? Nem mesmo eu!
Seu pai não precisava dizer mais nada, além disso, seu trabalho ali estava cumprido, virando-se em direção a um espelho de chão, Zero fez um gesto com a mão e o espelho brilhou e de repente ficou muito negro, como se houvesse um grande abismo do outro lado, Zero atravessou, sem se despedir, sabia como seu pai odiava despedidas, ele dizia que se você não se despedisse, era como se jamais tivesse saído, uma parte sua ficava para trás. Ao atravessar, o espelho voltou ao normal e a casa novamente ficou escura, iluminada apenas pela vela com suas chamas bruxuleantes.
- Levanta logo Kiubert, eu sei que ouviu tudo. O que está esperando? Um convite? – Disse o velho apontando seus dedos longos e enrugados para a menina ela.
A menina elfa se levantou e pegou o cajado, que automaticamente acendeu a sua gema, iluminando todo o recinto. Kiubert era bonita, não era muito alta, mas era bem magra e estava usando uma camisola de seda azul clara. Seus cabelos rosas eram repicados formando uma cascata rebelde que ia do ombro até o meio das costas, não era comum existirem elfos com cabelos cor-de-rosa, mas o que mais diferia Kiubert dos outros elfos, não eram os seus cabelos, mas sim os seus olhos, vazios, profundos… e cegos.
- O que eu devo fazer Sierj? – perguntou a garota. Seu tom de voz, era forte, decidido e carregado de uma arrogância muito grande. Na verdade Kiubert sabia o que tinha que fazer, a sua pergunta era um desafio, um teste tolo para testar a senilidade de seu mestre.
Sierj a olhou com raiva genuína, e Kiubert não precisava enxergar para sentir a sua aura, sabia que tinha ultrapassado os limites, então se dirigiu a um dos baús que ficavam próximos a cozinha. Eram baús comuns, mas quando Kiubert chegou perto, eles começaram a chacoalhar, como se estivessem com medo. Ela abriu a tampa, puxando-a com esforço para cima e o que quer que estivesse ali dentro, começou a guinchar, mas com um gesto bem simples e algumas palavras proferidas, a criatura fez silencio e ficou inerte. Ela estendeu a mão e retirou um animal peludo negro de dentro, não era nada comum, tinha presas pontiagudas e sua calda brilhava com um tom esverdeado que começou a pulsar assim que foi tirado de dentro do baú. Kiubert depositou o animal sobre uma das bancadas e sem cerimônias, puxou um cutelo de açougueiro e arrancou com um golpe só a cabeça do animal e depois foi para o rabo, que continuou brilhando mesmo após separado. Após isso, ela jogou o corpo do animal em uma lata suja que estava ali perto, pegou a cabeça do ser e arrancou-lhe os olhos com os dedos, por um instante exitou, era sensível quanto a olhos, mas a exitação não demorou nem um segundo a passar e continuou o seu ritual jogando a cabeça decepada na mesma lata.

